segunda-feira, 28 de julho de 2008

Afinal...

Afinal não era assim!

Quando os meus pais me anunciaram que eu viria de férias com eles até à Metrópole (era assim que o território de Portugal era referido nas colónias) eu rejubilara, pois finalmente viria conhecer o mundo civilizado. O centro glorioso do vasto império português. Ingenuidade...

Eu sonhava que iria encontrar um país modelar, evoluido. O espelho resplandecente das grandezas de tão enfatizado império.

Mas o que encontrei foram casas velhas, edifícios decrépitos, gentes enfadadas e sombrias. Ruas estreitas e pavimentadas com pedra na sua maioria, tendo essas pisos incomodamente desnivelados.

Era tudo tão velho e decrépito, ao olhar do menino (10 anos) que sonhara vir encontrar cidades que espelhassem a modernidade, por se encontrarem no continente-mãe da civilização na qual a história do seu país se integrava, como aquele com as mais velhas fronteiras definidas da Europa.

Afinal era tudo cinzento e decrépito!

E como se não bastasse... havia o choque do quotidiano mais íntimo.

Meus pais eram industriais de confecções; proprietários da «Marinex, Lda», que a minha mãe fundara e o meu pai geria. Eu crescera com desafogo, embora sem luxos. Meus pais eram pessoas simples, modestas e sem pretensões de ostentação. Contudo proporcionavam-nos o conforto e bem-estar bastante para nos considerarmos uma família feliz (materialmente falando). Enfim, eu era um menino filho de patrões, acostumado a ter criados em casa e dois carros na garagem; isto nos idos anos 60. Para o estilo de vida no Portugal continental, tal poderia ser considerado um luxo, mas no modelo de vida das colónias nem era tão extravagante assim.

Mas ao chegar ao Barreiro vi-nos instalados em casas de operários. Casas com poucos e pequenos cómodos, em que a vida girava em torno da cozinha, pois não havia sala-de-estar. Eram duas casas, onde se distribuiam dois núcleos da mesma família; uma do Tio Mário (onde se instalaram os meus pais) e a outra do Zé Pêra (onde me instalaram a mim). Embora a casa do Tio Mário fosse de construção mais velha, já tinham edificado uma casa-de-banho, pequena mas com banheira e azulejos brancos nas paredes. Aproveitaram para tal uma área dum páteo interior coberto a que davam o nome de «quintal». Casa-de-banho era um luxo indisponível na casa do Zé Pêra, onde as necessidades fisiológicas eram aliviadas numa pia de despejos, disfarçada num dos cantos da cozinha.
Mas embora modestas, eram casas asseadas que espelhavam a dignidade humana dos seus ocupantes; operários humildes, mas pessoas respeitadas e respeitadoras. E foi essa modéstia e dignidade que encontrei em casa de todos os restantes amigos e familiares, que depois fui conhecendo.

Afinal eu podia ser um «menino bem», «filho de patrão», mas provinha de famílias operárias e modestas.

6 comentários:

São disse...

Por algum motivo havia quem afirmasse, entre os colonizadores, que a àfrica era aqui...
Beijos.

ManDrag disse...

Salve! São
Sei do que falas.
Mas os papeis inverteram-se; e aquilo que antes eram regiões produtivas e cidades modernas, infelizmente se tornaram em países de pobreza e corrupção, bem patentes nas imagens lancinantes de decrepitude e miséria.
É assim que a humanidade vai construindo a sua história...
Salutas!

Paulo disse...

ManDrag

Muito gostaria de conhecer Africa em pormenor. Conheço apenas Cabo Verde. No entanto, senti o calor e as brisas de Africa.

Fascina-me, imenso.

Deixo-te um abraço.

ManDrag disse...

Salve! Paulo

Desculpa o atraso da resposta.
Conhecer África é um risco de paixão para toda a vida.
Gostaria muito de te poder mostrar a minha terra-mãe.

Sempre um abraço.

Salutas!

Paulo - Intemporal disse...

... diz-me lá, se a foto do cabeçalho deste blogue não representa o Barreiro... [?]

xim?

Abraço-TE

Tchi disse...

Como te entendo. Curioso que vivi uma sensação similar à tua «quando os meus pais me anunciaram que viria de férias até à Metrópole». E como tu digo: «Ingenuidade...».

Beijinhos.